O colapso da SuperVia, que durante décadas operou o sistema de trens urbanos do Rio de Janeiro, parecia estar chegando ao fim com o anúncio de um novo operador. No entanto, o leilão judicial realizado no último dia 10 de fevereiro levantou mais suspeitas do que esperanças.
O Consórcio Nova Via Mobilidade foi o único a apresentar proposta e, com um lance que ofereceu um desconto irrisório de 0,06% sobre a tarifa de remuneração estipulada pelo edital, levou a concessão de um dos sistemas de transporte mais complexos do país. O contrato é estimado em R$ 660 milhões.
Mas quem é, de fato, a Nova Via Mobilidade? E o que essa mudança significa para os moradores de Guapimirim, que hoje contam com locomotivas da década de 1960 e um serviço sucateado?
Empresas de “Prateleira” e Sombras do Banco Master
A investigação sobre a composição do consórcio vencedor acende alertas vermelhos. A Nova Via Mobilidade não é uma empresa consolidada no setor de transportes, mas sim um consórcio formado por dois fundos de investimento: o Nova Via Fundo de Investimentos e o Mega Fundo de Investimentos.
O detalhe alarmante é a data de criação desses fundos. Segundo registros da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), eles foram abertos em 15 e 22 de janeiro de 2026, respectivamente. Ou seja, poucas semanas antes do leilão que definiu o futuro dos trens do Rio.
Mais preocupante ainda é a empresa que administra esses dois fundos: a Planner Corretora de Valores.
A Conexão com o Rioprevidência
A Planner é figura carimbada em recentes escândalos financeiros no estado. A corretora está sob forte investigação do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ) por ter intermediado a compra de R$ 510 milhões em Letras Financeiras do Banco Master pelo fundo de pensão dos servidores estaduais, o Rioprevidência.
A operação foi considerada altamente irregular pelo TCE. Auditores apontaram que a transação gerou um prejuízo estimado em quase R$ 20 milhões aos cofres públicos devido a comissões muito acima do praticado no mercado. Vale lembrar que, em novembro do ano passado, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master devido a indícios de irregularidades financeiras.
Ao ser questionada pela imprensa da capital, a Nova Via tentou se distanciar do escândalo, afirmando que a Planner atua apenas como administradora formal dos fundos e que a operação dos trens será subcontratada a uma empresa de engenharia e ao Grupo Barraqueiro, gigante do transporte em Portugal. O Governo do Estado do Rio de Janeiro se manteve em silêncio sobre as ligações suspeitas do consórcio vencedor.
E Guapimirim no meio dessa troca?
Enquanto os bastidores fervem no Tribunal de Justiça e no Palácio Guanabara, o usuário na ponta da linha se pergunta se o serviço vai melhorar.
O contrato prevê uma mudança importante no modelo de negócio: a nova concessionária passará a ser remunerada por quilômetro rodado, e não mais apenas pelo número de passageiros transportados. Em tese, isso deve forçar a empresa a colocar mais trens em circulação e cumprir os horários, independentemente de os vagões estarem lotados. A operação começa em março, com a Nova Via trabalhando lado a lado com a SuperVia num período de transição de 90 dias.
Para Guapimirim e Vila Inhomirim, os desafios são muito mais profundos. Estas são as duas únicas extensões operadas a diesel em toda a malha fluminense. Os problemas vão muito além de atrasos:
- Material Rodante Obsoleto: As locomotivas e os carros de passageiros datam, em sua maioria, da década de 1960. O desgaste é constante.
- Infraestrutura Precária: A via permanente sofre com falta de manutenção de dormentes e invasões na faixa de domínio.
- Passagens Clandestinas: Como evidenciado pelo recente acidente fatal em Suruí, a falta de segurança ao longo da via férrea é uma crise contínua.
- Falta de Integração: O modelo atual penaliza moradores que dependem de fazer baldeação em Saracuruna.
Até o momento, não há nenhum plano de investimentos detalhado pela Nova Via Mobilidade específico para a eletrificação ou modernização da frota do ramal de Guapimirim.
Se o passado ensina algo aos passageiros fluminenses, é que promessas de novos operadores precisam ser vistas com ceticismo. Com um contrato inicial de apenas cinco anos, o consórcio ligado à Planner terá que provar rapidamente que tem fôlego – e dinheiro limpo – para tirar o transporte de Guapimirim do século passado.
Reportagem Especial emguapi.com | Fontes: TCE-RJ, Tribunal de Justiça do RJ, Diário do Transporte e O Globo.