Enquanto grandes metrópoles e a maior parte do território brasileiro se despedem definitivamente dos icônicos telefones públicos, um cantinho especial de Guapimirim caminha na contramão dessa extinção tecnológica.
O bairro de Paraíso, na zona rural do município, foi destaque em reportagem recente exibida em rede nacional no Fantástico, mostrando que, por ali, o “velho de guerra” ainda é uma ferramenta vital de sobrevivência.
Em um cenário onde o Brasil já conta com mais de 270 milhões de celulares e a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) prioriza a expansão do 5G, o orelhão de Paraíso garantiu sua permanência pelo menos até o fim de 2028.
Oásis analógico em meio à falha digital
A reportagem revelou um dado que explica a necessidade dessa exceção: na localidade de Paraíso, onde vivem menos de 500 pessoas, a cobertura de sinal 4G é de pouco mais de 3%.
Para os moradores da região, a tecnologia moderna como o Wi-Fi residencial existe, mas é refém das intempéries. Como relatado na matéria, basta o tempo virar ou ventar para que a luz falte. E, sem energia elétrica, a internet doméstica desaparece, deixando a comunidade isolada. É nesse momento que a cúpula de fibra de vidro se torna a única salvação.
Eu queria marcar uma consulta com o Dr. Bruno… Aqui tem Wi-Fi, mas cai. O tempo virou, falta luz, ventou, falta luz. E aí, quando não tem luz, é o orelhão que salva a gente”, relatou uma moradora local entrevistada.
”Se alguém passar mal, é o orelhão”
Um dos protagonistas da matéria foi Ed, nascido no povoado e funcionário do Inea (Instituto Estadual do Ambiente). Ele reforçou o papel social e de emergência que o aparelho desempenha na comunidade. Longe de ser apenas um objeto de nostalgia ou design retrô, o telefone público é a linha direta com a saúde.
Durante a reportagem, houve até um momento de interação ao vivo, provando que o aparelho está em pleno funcionamento: o telefone tocou e Ed atendeu uma chamada da repórter, matando a saudade de uma prática que a maioria dos brasileiros já abandonou há mais de uma década.
A exceção da regra: Os últimos 9.000
O caso de Guapimirim ilustra uma diretriz específica da Anatel. Dos milhões de aparelhos que existiam no auge da telefonia fixa, restam hoje menos de 40.000 no Brasil. A grande maioria será retirada após o fim dos contratos de manutenção com as operadoras.
No entanto, cerca de 9.000 aparelhos foram mapeados como essenciais e serão mantidos por mais três anos em localidades que, assim como Paraíso, possuem infraestrutura de sinal móvel precária ou inexistente.
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Para Guapimirim, a permanência do orelhão é uma faca de dois gumes: por um lado, garante a segurança dos moradores de Paraíso em momentos críticos; por outro, expõe a necessidade urgente de melhorias na infraestrutura de telecomunicações e energia na zona rural da cidade. Enquanto a fibra óptica e o 5G não cobrem 100% do território, o toque estridente do orelhão em Paraíso continuará sendo, literalmente, um sinal de vida.