Se a tarifa intermunicipal em Guapimirim já pesa no bolso, quem depende dos ônibus enfrenta um segundo e silencioso castigo: a redução drástica de horários.
Levantamentos e denúncias recebidas pelo emguapi.com revelam que o sistema rodoviário que atende a cidade sofreu um enxugamento severo durante a pandemia de Covid-19, em 2020. O problema é que a pandemia acabou, a rotina de trabalho presencial voltou ao normal, mas as empresas nunca devolveram as frotas completas às ruas, usando o corte emergencial como uma manobra permanente para reduzir custos.
O fim do conforto: Seletiva vs. Parador
A prova mais clara desse sucateamento operacional é a confusão e o sumiço das linhas executivas rumo ao Rio de Janeiro. No passado, o passageiro tinha o poder de escolha: podia pegar a antiga 196C (Parador), um ônibus urbano convencional que parava em toda a extensão da Rodovia Washington Luiz e da Avenida Brasil; ou pagar um pouco mais para ir no 195C / 2195C (Seletiva), que oferecia ar-condicionado, poltronas acolchoadas, garantia de viagem sentado e um trajeto mais rápido via Linha Vermelha.
Hoje, essa divisão praticamente não existe. A Viação Reginas fundiu e alterou a dinâmica das linhas. O serviço Seletiva (Executivo) tornou-se escasso, obrigando toda a demanda de trabalhadores de Guapimirim a se espremer nos ônibus de serviço Parador — muitos deles rodando sem ar-condicionado. Na prática, o passageiro paga uma tarifa altíssima de viagem intermunicipal de longa distância, mas viaja nas mesmas condições precárias de um ônibus circular de bairro.
A ‘Linha Fantasma’ para o Castelo
O caso mais revoltante é a linha executiva direta para o Castelo (2195C). Antes uma opção viável para quem precisava chegar ao Centro do Rio com o mínimo de conforto, hoje a linha opera em esquema de “racionamento”.
O morador só conta com partidas restritas no início da manhã (na faixa das 05h e 06h) e retornos espremidos no final da tarde (entre 17h e 18h). Quem tem expedientes flexíveis, trabalha por turno ou precisa ir ao Rio fora do horário de pico comercial, fica “ilhado”. Aos finais de semana, a linha frequentemente entra no status de “Fora de Operação”, forçando o passageiro a recorrer às vans ou a encarar horas em pé no Parador.
576I (Caxias): Os ‘buracos’ na tabela
A ligação de Guapimirim com Duque de Caxias através da linha 576I também é alvo constante de queixas. O que antes costumava ter janelas fixas (de hora em hora em muitos períodos do dia), hoje apresenta “buracos” inexplicáveis na grade.
“Você chega no ponto achando que perdeu o ônibus por minutos, mas na verdade a empresa cortou aquele horário. Já cheguei a ficar quase duas horas plantada no Centro de Guapimirim esperando o Caxias, totalmente exposta na rua porque não temos rodoviária”, desabafa uma moradora que preferiu não se identificar.
Cadê o Detro?
Essa precarização na oferta de viagens não é exclusividade de Guapimirim, mas a cidade é uma das mais prejudicadas por estar na “ponta” da malha intermunicipal. Recentemente, o Detro-RJ interveio e puniu empresas na Baixada Fluminense justamente pela prestação de um serviço sucateado e descumprimento de horários.
A população de Guapimirim aguarda que essa mesma régua de fiscalização chegue novamente a cidade, já que a última fiscalização não resultou em mudanças significativas. É preciso que os órgãos reguladores exijam o restabelecimento das grades de horários pré-pandemia e a volta regular dos ônibus Seletivos, provando que a concessão pública de transporte deve servir ao cidadão, e não apenas à matemática financeira das garagens.
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